Pular para o conteúdo
Journal
Criação, produção e operação.
Diretora e diretor de fotografia olham juntos o monitor ao lado de uma câmera de cinema num estúdio com luz de janela.
Guia completo · 7 capítulos · 31 min

IA generativa na produção de vídeo: o que já funciona, o que ainda falha e o que exigir

Um guia sem promessa e sem pânico: onde a IA generativa já trabalha bem num filme de marca, onde ainda quebra, para onde o dinheiro se move e o que precisa estar escrito antes de publicar.

  1. 01Discurso × produção
  2. 02Onde funciona
  3. 03Onde ainda falha
  4. 04Custo real
  5. 05Governança
  6. 06Regulação no Brasil
  7. 07O time que muda

Resposta curta

A IA generativa entrega mais onde o objetivo é ver rápido e variar com critério claro: pesquisa, frames de estudo, animatic, versões, legendas, localização e limpeza de pós. Ainda falha em atuação, continuidade de personagem, fidelidade de produto e segurança de direitos. O dinheiro não some: sai de horas repetitivas e vai para direção, revisão, jurídico e registro.

Em resumo

  • A adoção é alta, mas usar IA em alguma etapa é diferente de substituir a produção.
  • O ganho mais seguro está antes do set e nas versões; o risco mais caro está em rosto, voz e produto.
  • O orçamento muda de lugar: menos horas de tarefa repetitiva, mais direção, curadoria e revisão.
  • No Brasil, a lei geral de IA ainda não foi votada na Câmara; consentimento escrito e registro já são exigíveis por contrato.

Carta de abertura

Quase toda conversa sobre um projeto novo passa, em algum momento, pela mesma pergunta: dá para fazer com IA? Às vezes ela chega como curiosidade, às vezes como pressão do orçamento, às vezes como pedido pronto, “queremos um vídeo feito com IA”. Em todos os casos, a pergunta costuma vir antes da mais importante: qual problema esse vídeo precisa resolver?

Este guia existe para separar as duas coisas, e é escrito por quem usa. Na Tangram, a IA trabalha ao lado da criação humana e da tecnologia de produção, como aceleradora de etapas: entra em diferentes projetos, onde faz sentido — pesquisa, roteiro, pré-visualização, versões, pós, legendas e localização —, e geramos imagem, cena ou a peça inteira quando esse é o propósito — sempre com direção, critério e regras escritas. O que não fazemos é publicar porcentagens próprias de economia: o mercado está cheio de números de ganho que ninguém consegue auditar, e não queremos acrescentar mais um. Os dados deste guia são públicos e verificáveis (pesquisas de mercado, anúncios oficiais de plataformas, projetos de lei); a leitura deles é de quem produz com a ferramenta.

A tese é simples. A IA generativa já é uma camada real do processo audiovisual, e quem a ignora faz à mão o que não precisaria. Mas ela é uma camada, não a base. Filme de marca continua dependendo de alguém que decida o que a imagem precisa dizer, de pessoas em frente à câmera quando a história pede pessoas, e de regras claras sobre rosto, voz e produto. É nessa combinação — criação humana, IA e tecnologia na mesma direção — que a nossa operação trabalha.

Se você já leu nosso texto mais curto sobre IA na produção audiovisual, este é o aprofundamento: com capítulos sobre custo, governança, regulação e o time que muda. Ele foi escrito para quem aprova, e não só para quem opera a ferramenta.

— Redação Tangram, Journal · Tangram
Três profissionais de marketing em volta de uma mesa com laptop e folhas de storyboard impressas.
Capítulo 01

O que a IA generativa entrega de fato numa produção de marca?

Quem trabalha com vídeo já ouviu as duas versões, às vezes no mesmo dia e da mesma pessoa. O discurso sobre IA generativa em vídeo costuma vir em dois tons: o da revolução (“qualquer marca vai produzir filmes sem set”) e o do pânico (“as produtoras vão acabar”). Na mesa de produção, nenhum dos dois ajuda. O que ajuda é saber em que etapa a ferramenta entra, o que ela entrega ali e quem responde pelo resultado.

Os números de adoção são altos. No relatório de 2025 sobre investimento em vídeo digital, o IAB americano mostrou que 86% dos compradores de mídia em vídeo usam ou planejam usar IA generativa para construir criativos, e projetou que 40% dos anúncios teriam criativo feito com IA generativa em 2026. É um dado dos Estados Unidos, mas ele descreve bem a pressão que chega às marcas brasileiras, muitas delas com matriz, agência ou plataforma de mídia globais.

O ponto é o que esse “usar” quer dizer. No mesmo levantamento, os usos mais citados são criar versões para públicos diferentes, mudar estilo visual e adaptar a peça ao contexto. Ou seja: a maior parte da adoção está em variar e adaptar, não em inventar o filme do zero. Usar IA em alguma etapa é muito diferente de substituir a produção.

A edição de 2026 do estudo, publicada em julho, mediu o uso em vez da intenção: quase dois em cada três compradores já usam IA generativa no criativo de vídeo digital, contra metade em 2025. Mas eles estimam que um terço das peças de 2026 usa a tecnologia, abaixo dos 40% que tinham projetado um ano antes, e esperam 43% em 2027. A ferramenta entrou no processo de quase todo mundo; a peça inteira gerada continua sendo exceção.

Peças de vídeo com IA generativa: projeção e estimativa
2025 (estimativa)
1/4
2026 (projetado em 2025)
40%
2026 (estimativa em 2026)
1/3
2027 (projeção)
43%
A adoção cresce, mas mais devagar do que o próprio mercado previa. Base: compradores de mídia em vídeo nos EUA (IAB, 2025 e 2026).Fonte: IAB — 2026 Digital Video Ad Spend & Strategy, parte 2 (jul. 2026)

O público não está tão entusiasmado quanto o mercado

Um segundo estudo do IAB, publicado em janeiro de 2026, mediu o outro lado. Entre consumidores americanos da geração Z e millennials, 45% disseram se sentir positivos em relação a anúncios feitos com IA. Entre executivos de publicidade, 82% achavam que o público se sentia assim. A distância entre as duas percepções é de 37 pontos, e a parcela de consumidores com visão negativa cresceu 12 pontos em um ano.

82%

dos executivos de publicidade acham que o público vê com bons olhos anúncios feitos com IA

45%

dos consumidores da geração Z e millennials dizem se sentir positivos sobre esses anúncios

83%

dos executivos dizem que suas empresas já usam IA no processo criativo

A lacuna de percepção medida pelo IAB nos EUA (pesquisa de out. 2025 a jan. 2026, 505 consumidores e 104 executivos).Fonte: IAB — The AI Ad Gap Widens

O mesmo estudo traz um dado que ajuda a pensar a transparência: 73% dos consumidores ouvidos disseram que saber que o anúncio usou IA aumentaria a chance de compra ou não faria diferença. Informar o uso, portanto, tende a custar menos do que o mercado teme. O que custa caro é o público descobrir sozinho.

Um caso público que ajuda a calibrar

Em novembro de 2024, a Coca-Cola lançou uma releitura do clássico “Holidays Are Coming” feita com IA generativa por três estúdios especializados. A reação nas redes foi dura: parte do público chamou o filme de “sem alma”, e profissionais criativos criticaram a troca de artistas por modelos treinados com trabalho alheio. Em novembro de 2025, a marca voltou ao tema com uma nova versão e defendeu que a tecnologia permite produzir versões de um filme para públicos e países diferentes com rapidez.

Semanas depois, outro caso teve reação mais dura. Em dezembro de 2025, o McDonald’s da Holanda publicou um filme de Natal gerado com IA, feito pela agência TBWA\Neboko com a produtora The Sweetshop, e o retirou do ar poucos dias depois, diante das críticas. Na nota divulgada à imprensa, a marca disse que o filme pretendia refletir os momentos estressantes das festas, mas reconheceu que, para muitos clientes, a época é a mais feliz do ano. No mesmo ano, na direção oposta, um anúncio da plataforma de previsões Kalshi, gerado inteiramente com o Veo 3 do Google, foi ao ar na transmissão das finais da NBA pelo YouTube TV — uma peça de humor absurdo, em que a estranheza da imagem fazia parte da piada.

Os dois casos não provam que IA em filme de marca dá certo ou errado. Eles mostram onde o risco mora: numa peça cuja razão de existir é emoção e memória afetiva, qualquer estranheza de imagem vira assunto; numa peça que assume o absurdo, a mesma estranheza pode ser linguagem. E mostram onde as marcas enxergam valor: no volume de versões e na velocidade, não na substituição da ideia.

O que o discurso promete
  • Filme inteiro sem set, elenco ou locação
  • Custo cai na mesma proporção do tempo
  • Qualquer pessoa gera o criativo final
  • Mais peças = mais resultado
O que a produção encontra
  • Ganho claro em estudo, versões e pós
  • Horas saem da execução e vão para revisão e decisão
  • Alguém precisa dizer o que a imagem comunica
  • Mais peças exigem mais critério de aprovação
Discurso e prática: a diferença não está na ferramenta, está no que se espera dela.

Por isso a pergunta que abre este guia não é “dá para fazer com IA?”. É “em qual etapa a IA melhora esta peça, e quem responde por ela quando der errado?”. Os próximos capítulos respondem a essas duas perguntas, etapa por etapa.

Diretor de arte prende frames de storyboard e amostras de cor num painel de cortiça.
Capítulo 02

Onde a IA generativa já funciona bem na produção de vídeo?

Existe um padrão nos usos que funcionam: a IA rende mais onde o objetivo é ver algo rápido para decidir melhor, e onde o critério de qualidade é fácil de conferir. Um céu estendido está certo ou errado. Uma legenda está sincronizada ou não. Já “essa cena emociona?” não tem conferência automática.

Onde a IA generativa funciona hoje, por etapa
EtapaUso que funcionaQuem confere
PesquisaLevantar informação, organizar pauta, sugerir perguntas de entrevistaRoteiro, com checagem na fonte original
Estudo visualMoodboard, frames de intenção, testes de paleta, figurino e cenárioDireção e direção de arte
ApresentaçãoStoryboard e animatic com luz e enquadramento pretendidosDireção, com aviso de que é estudo
PósLimpeza, remoção de objetos, extensão de cenário, upscale, separação de áudioEdição, finalização e cor
VersõesAdaptação de formato, variações de texto e de aberturaEdição e atendimento
LocalizaçãoTradução de legendas, dublagem de apoio, versões por paísRevisor nativo e cliente

É também onde a IA mais trabalha na nossa operação. Na Tangram, conforme o projeto, usamos IA para chegar mais rápido às perguntas certas de uma pesquisa, mostrar a luz e o enquadramento de uma cena antes da diária, limpar e estender planos na pós, desdobrar formatos, legendar e traduzir. Em todos esses usos, alguém da equipe confere o resultado antes de ele seguir adiante.

Pré-produção: errar barato

Pesquisa é o uso mais subestimado. Para um institucional ou um documentário de marca, conversar com a ferramenta sobre o tema e chegar rápido às perguntas que valem numa entrevista economiza dias de leitura dispersa. Ela é um ponto de partida de informação, não de ideia: para criação, tende a ser repetitiva e a devolver o que já existe. E tudo que vira afirmação no roteiro precisa ser checado na fonte, porque a ferramenta ainda inventa dados e links.

Na parte visual, frames gerados com a luz, a paleta e o enquadramento pretendidos mostram a intenção muito melhor do que um desenho a lápis. Um animatic feito com esses frames dá noção de ritmo antes de qualquer diária. O resultado é uma aprovação mais segura, porque todo mundo está vendo a mesma coisa, desde que fique escrito que o frame é estudo, e não promessa.

Versões e formatos: onde o volume está

Depois que o filme principal está aprovado, a IA ajuda a transformar uma peça em família: reenquadrar para 9:16, estender um fundo que não cabia no vertical, gerar variações de texto para testar aberturas, produzir legendas. É exatamente o uso que os anunciantes mais citam no levantamento do IAB.

Para que os anunciantes usam IA generativa no criativo de vídeo
Versões para públicos diferentes
42%
Mudança de estilo visual
38%
Adaptação ao contexto
36%
Os três usos mais citados são de adaptação, não de criação do filme do zero. Base: compradores de mídia em vídeo nos EUA.Fonte: IAB — 2025 Digital Video Ad Spend & Strategy Full Report
16:9 · filme
1:1 · feed
4:5 · recorte
9:16 · vertical
Marca fictícia (Serrano Café). A adaptação de formato é onde a automação mais rende, e onde cada recorte ainda precisa de alguém conferindo produto e área de texto.

O limite é o mesmo de sempre: o que não foi pensado no set não aparece na pós. A ferramenta estende um fundo, mas não inventa o plano fechado do produto que ninguém filmou. Por isso o planejamento de desdobramento continua começando no orçamento, e a IA entra depois para acelerar o que já estava previsto.

Localização: o avanço mais visível do último ano

Tradução de legenda já era um uso consolidado: a ferramenta faz o grosso e alguém fluente faz o ajuste fino de linguagem, principalmente em termos técnicos e de marca. A novidade é a voz. Em fevereiro de 2026, o YouTube liberou a dublagem automática para todos os criadores, em 27 idiomas, com uma versão de fala mais expressiva em oito deles, português incluído, e um teste de sincronia labial.

As plataformas seguem empurrando nessa direção. Na carta de janeiro de 2026, o YouTube informou que mais de 6 milhões de espectadores por dia assistiram a pelo menos 10 minutos de conteúdo com dublagem automática em dezembro de 2025, e que mais de 1 milhão de canais usaram diariamente as suas ferramentas de criação com IA. Em setembro de 2026, no Made on YouTube, anunciou dublagem automática em tempo real para transmissões ao vivo e um editor conversacional para Shorts. O TikTok levou o Symphony, sua suíte de criativo com IA, a gerar vídeos de até 30 segundos em agosto, e a Meta disse, em julho de 2026, que mais de 9 milhões de pequenas empresas usam ao menos uma das suas ferramentas de criativo com IA.

Para uma marca, isso muda a conta de conteúdos de apoio, como tutoriais, depoimentos e vídeos institucionais distribuídos em vários países. Para um filme de campanha, a dublagem automática ainda é versão de trabalho: o timbre, a interpretação e a adaptação cultural de uma fala continuam pedindo pessoas. E, se a voz for de uma pessoa identificável, entra a questão de consentimento que o capítulo 6 detalha.

Um exemplo nosso: em My Roots Tell the Future, filme imersivo para o telão 360° da BAT Brasil, a IA entrou em duas etapas. Deu movimento ao acervo histórico da companhia — fotografias de mais de um século que precisavam ocupar uma sala inteira — e gerou as imagens do futuro, de satélites à previsão de safra, que nenhuma câmera poderia registrar. O presente continuou sendo captação de campo em 6K e drone, com produtores e orientadores de verdade. A direção decidiu onde cada técnica servia à história.

Mãos seguram uma folha de tabaco curada, iluminada por trás contra fundo preto, revelando as nervuras em tom âmbar.Orientador agrícola de chapéu de palha com a marca BAT conversa com um produtor na lavoura.Close de uma muda de tabaco recém-colocada no copo de uma bandeja de plantio.
Na prática · BAT BrasilMy Roots Tell the Future

Filme imersivo de 5'42" para telão 360°: arquivo histórico animado com IA, captação de campo em 6K e drone e imagens do futuro geradas com IA.

Ver o projeto ↗
Diretora agachada ao lado de uma atriz dá uma indicação entre tomadas num set de cozinha.
Capítulo 03

Onde a IA generativa ainda falha num filme de marca?

Pense numa foto de família em que todo mundo sorri e a luz está bonita, mas o reflexo no espelho não bate. Uma imagem gerada pode ser bonita e ainda assim errada. Em filme de marca, as falhas que importam não são as mais comentadas nas redes. O que costuma travar uma aprovação é mais sutil, e mais caro de corrigir.

Atuação: plausível não é suficiente

Uma cena com pessoas depende de coisas que ainda não se descrevem bem num pedido de texto: o tempo de uma pausa, o olhar que muda no meio da fala, a ironia de uma frase. A ferramenta produz algo plausível. Um filme de marca precisa de algo decidido, e essa decisão acontece no set, entre direção e elenco, tomada após tomada.

Continuidade: o mesmo rosto em todos os planos

Manter a mesma pessoa, com o mesmo rosto, a mesma roupa e a mesma luz ao longo de vários planos ainda é o problema mais visível. Com dois ou três personagens na mesma sequência, qualquer variação salta aos olhos de quem assiste. Dá para corrigir na edição e na finalização, mas essa correção consome o tempo que a geração tinha economizado. Por isso, quando usamos IA em cenas com pessoas, a conferência de continuidade é uma etapa própria da revisão, feita plano a plano, e não um olhar rápido no corte final.

Produto: onde a marca não negocia

Um rótulo com uma letra trocada, uma embalagem com proporção alterada, um logotipo levemente deformado. Nenhum desses erros passa numa aprovação de marca, e todos são comuns em imagem gerada. Por isso, em peças com produto em destaque, o caminho mais seguro continua sendo filmar ou fotografar o produto real e usar a IA no entorno: cenário, extensão, variação de fundo.

estudo_brisa_packshot_v4Não aprovado
123
  1. 1
    Marca00:02

    O rótulo muda entre quadros. Precisa ser o frasco real.

  2. 2
    Direção00:02

    Serve de estudo de luz. Produto entra com still.

  3. 3
    Jurídico00:05

    Registrar ferramenta e insumos.

    Resolvido
Marca fictícia (Brisa). Uma rodada típica de revisão: a imagem serve como estudo de luz, mas o produto precisa ser o real.

Informação e texto na tela

Ferramentas de linguagem inventam dados com segurança. Ferramentas de imagem inventam letras. Os dois problemas pedem a mesma resposta: texto que vai para a tela é feito em ferramenta de texto, e dado que vai para o roteiro é conferido na fonte.

Direitos: a falha que não aparece na imagem

A falha mais cara às vezes nem se vê. Um rosto parecido demais com alguém real, uma voz que lembra a de um locutor conhecido, um personagem que remete a uma marca de terceiros, ou uma ferramenta cujos termos não permitem uso comercial daquele resultado. A lei brasileira de direitos autorais define autor como “a pessoa física criadora de obra”, o que deixa em aberto a proteção de um resultado gerado quase sem intervenção humana. Para uma marca, isso é risco de propriedade: pode ser difícil impedir que outros usem uma imagem que ela acredita ser sua.

As falhas que mais travam aprovação e o que fazer com cada uma
FalhaPor que importaO que fazer
AtuaçãoEmoção e timing não se descrevem bem num pedido de textoElenco e direção de cena em peças que dependem de gente
ContinuidadeRosto, roupa e luz variam entre planosPoucos planos gerados, bem conferidos; referência fixa de personagem
Produto e rótuloErro de embalagem não passa em nenhuma marcaProduto real filmado; IA só no entorno
Texto e dadosLetras e números inventadosTexto feito em ferramenta de texto; dados checados na fonte
DireitosSemelhança, termos de uso, autoriaRegistro de ferramentas e insumos; revisão jurídica

Nenhuma dessas falhas é motivo para não usar a ferramenta. Elas definem onde ela entra: longe do rosto, da voz e do produto quando esses elementos são o centro da peça, e perto deles só quando existe autorização, referência e alguém revisando quadro a quadro.

Produtor executivo revisa um orçamento impresso e ordens do dia na mesa do escritório de produção.
Capítulo 04

A IA generativa deixa a produção de vídeo mais barata?

Há quem diga que a IA deixa o vídeo muito mais barato. É como dizer que a viagem ficou de graça porque o carro agora é elétrico: a conta do combustível mudou, mas a estrada, o pedágio e o tempo no volante continuam os mesmos.

Tende a custar menos
  • Horas de estudo visual e apresentação
  • Tarefas repetitivas de pós (limpeza, extensão, recorte)
  • Versões de formato e legendas
  • Primeira versão de tradução
Tende a custar mais
  • Direção e curadoria: gerar muito e escolher bem
  • Revisão quadro a quadro de continuidade e produto
  • Assinaturas, créditos de geração e testes descartados
  • Jurídico, consentimentos e registro de insumos
O efeito mais comum não é um orçamento menor para a mesma coisa. É o dinheiro mudando de linha.

O que fica mais barato

A resposta honesta é: depende da peça, e quase nunca na proporção que o discurso sugere. Usamos IA em várias etapas da nossa operação e, justamente por isso, desconfiamos de quem apresenta um número único de economia para todos os projetos. O que dá para fazer é mostrar para onde o dinheiro se move quando a IA entra.

O que fica igual

Etapas em que a IA encurta trabalho repetitivo: o storyboard que levava dias, a limpeza de um plano, as versões de formato de uma peça já aprovada, o primeiro rascunho de legenda. Aqui o ganho é real e tende a crescer à medida que as ferramentas amadurecem.

O que passa a custar mais

Nos projetos que dependem de imagem real, a equipe de set, o elenco, a locação, a luz e o som continuam existindo. Uma diária é uma diária. O que muda é que ela pode ser mais bem aproveitada, porque a ideia chegou mais testada.

Gerar é rápido; escolher não é. Quem já acompanhou uma sessão de geração sabe que o resultado bom sai de dezenas de tentativas descartadas, e cada tentativa custa crédito e tempo de alguém com olhar treinado. Somam-se a isso a revisão de continuidade e de produto, as assinaturas das ferramentas, os testes que não viram peça e o trabalho jurídico de conferir termos de uso e consentimentos. Numa fase em que as ferramentas mudam de preço e de versão a cada poucos meses, parte do custo é aprendizado.

Os casos públicos confirmam. O diretor do anúncio da Kalshi contou à NPR que precisou de 300 a 400 gerações para chegar a 15 clipes aproveitáveis. No filme de Natal do McDonald’s da Holanda, a CEO da produtora escreveu, numa publicação depois apagada e citada pela NBC News, que o trabalho ocupou dez pessoas em tempo integral por cinco semanas, e que as horas superaram de longe as de uma filmagem tradicional. Nos dois casos, o tempo não sumiu: foi para gerar, escolher e corrigir.

300–400

gerações para chegar a 15 clipes aproveitáveis no anúncio da Kalshi (2025)

5 semanas

com dez pessoas em tempo integral no filme de Natal do McDonald’s da Holanda (2025)

Gerar é rápido; chegar ao que vai ao ar, não. Fontes: NPR (Kalshi, 23/06/2025) e NBC News (McDonald’s, 11/12/2025).Fonte: NBC News — McDonald’s pulls AI-generated Christmas ad after social media backlash

Gerar é rápido. Escolher o que fica é que custa.

O custo de depender de uma ferramenta

Existe ainda um custo que não aparece na planilha até virar problema. Em março de 2026, a OpenAI anunciou o encerramento do Sora em duas etapas: o aplicativo saiu do ar em 26 de abril, e a API, usada por empresas que integraram a geração de vídeo em seus próprios fluxos, foi desligada em 24 de setembro de 2026. Quem tinha um processo inteiro apoiado nela precisou migrar, e quem não exportou o material a tempo arriscou perdê-lo.

  1. Mar. 2026Anúncio do encerramento

    OpenAI comunica o fim do Sora em duas etapas e orienta usuários a exportar o conteúdo.

  2. 26 abr. 2026App e web fora do ar

    Fim do acesso pelo aplicativo e pela versão web.

  3. 24 set. 2026API desligada

    Integrações de terceiros param de funcionar; dados são apagados após os prazos.

O encerramento do Sora como exemplo de risco de plataforma. Fonte: The Decoder, 28 mar. 2026.

A lição para quem compra produção não é evitar ferramentas, é não construir o processo em cima de uma só. Ideia, roteiro, arquivos de projeto e material bruto precisam viver fora da plataforma, com cópia e registro. A ferramenta é trocável; o método não deveria ser.

O efeito mais comum, no fim, não é um projeto mais barato para a mesma entrega. É mais exploração pelo mesmo investimento: mais caminhos testados antes de decidir, mais versões no pacote final, e projetos que antes não caberiam no prazo passando a caber.

No filme da Tramontina Eletrik, a fábrica, a instalação e a casa foram filmadas de verdade, com produtos reais. A IA entrou num ponto só: a sequência em que a câmera entra no interruptor Onne e atravessa um túnel de energia, com placa, sensor e moldura se separando em camadas. É o tipo de cena que pediria muitos dias de computação gráfica — e que aqui serviu a uma ideia já decidida no roteiro.

Interruptor touch Onne preto aparece desmontado em camadas (moldura, placas de circuito verdes e vidro frontal) dentro de um túnel digital azul.Eletricista ao lado de um quadro de distribuição aberto; na bancada, ferramentas de cabo vermelho e plugues industriais.Os dois eletricistas dentro de uma cápsula luminosa azul, atravessando o túnel de computação gráfica do filme.
Na prática · TramontinaEletrik — Quem entende

Filme de produto captado em fábrica e casa reais; a sequência do túnel de energia dentro do interruptor Onne foi criada com IA na pós.

Ver o projeto ↗
Editora e representante do cliente revisam um corte num monitor grande numa ilha de edição à meia-luz.
Capítulo 05

O que checar antes de publicar uma peça feita com IA?

Quem já parou no último segundo antes de enviar um e-mail, porque sentiu que faltava conferir algo, conhece o instinto que a produção pede, só que com uma lista maior. Governança soa como palavra de comitê, mas na produção ela é bem concreta: saber o que entrou na peça, quem autorizou e quem conferiu. Quando isso está escrito antes do projeto começar, a aprovação anda. Quando é discutido caso a caso, na véspera da publicação, trava.

A régua não é nova. Em maio de 2026, o Conar publicou a nova edição do guia de publicidade com influenciadores e incluiu a IA de forma explícita: as regras do código publicitário valem para conteúdos gerados, editados ou segmentados com IA, e influenciadores, anunciantes e agências continuam responsáveis pelo resultado, com o dever de garantir que imagem, som, simulação ou depoimento não induzam o consumidor a erro sobre o produto. O próprio guia avisa que não cria, por ora, uma regra específica de aviso sobre o uso de IA. Em outras palavras, a IA não cria uma zona livre. Ela só cria mais pontos para conferir.

  1. 01Plano de uso

    Onde a IA entra, com quais ferramentas e o que não pode ser gerado.

  2. 02Registro

    Ferramentas, versões, insumos e autorizações de cada peça.

  3. 03Revisão criativa

    A imagem comunica a ideia do briefing?

  4. 04Marca e produto

    Rótulo, cor, proporção, logotipo e texto na tela.

  5. 05Jurídico

    Termos de uso, consentimentos, semelhança com terceiros.

  6. 06Rotulagem e arquivo

    Aviso ao público quando cabível e arquivamento do registro.

Um fluxo de aprovação para peças com elemento gerado. As etapas podem ser curtas, mas não podem ser puladas.

O checklist antes de ir ao ar

checklist_ia_serrano_campanha.pdf
Ferramentas e versões
Registradas no projeto
Uso comercial permitido
Conferido nos termos
Insumos de terceiros
Somente banco licenciado
Rosto ou voz de pessoa real
faltando
Produto e rótulo
Still real do set
Texto na tela
Feito na edição
Rotulagem ao público
faltando
Responsável pela aprovação
Marketing + jurídico
Segura a publicação
Marca fictícia (Serrano Café). Um checklist preenchido: dois itens em aberto seguram a publicação até alguém responder.

A lista pode ser curta, mas cada item precisa de dono. Um jeito prático de organizar:

Quem confere o quê
ItemPerguntaQuem responde
IntençãoA peça comunica o que o briefing pediu?Direção criativa
ProdutoEmbalagem, rótulo, cor e proporção estão corretos?Marca / produto
PessoasExiste rosto ou voz identificável? Há autorização escrita para este uso?Produção + jurídico
FerramentasOs termos permitem uso comercial? Quais versões foram usadas?Produção
TerceirosSurgiu logotipo, personagem ou obra protegida?Finalização + jurídico
TransparênciaA peça precisa de aviso ao público nesta plataforma e neste país?Marketing + jurídico
ArquivoO registro de insumos e autorizações foi guardado com a peça?Produção

Rotulagem: quando avisar

As plataformas já têm regras próprias. O YouTube, por exemplo, pede desde março de 2024 que criadores informem quando um conteúdo realista foi alterado ou gerado sinteticamente, como fazer uma pessoa real dizer algo que não disse ou mostrar um evento que não aconteceu. Por outro lado, não exige aviso para uso de IA em produtividade (roteiro, ideias, legendas automáticas), para conteúdo claramente irreal ou animado, nem para ajustes de cor e efeitos.

As ferramentas de anúncio também passaram a marcar o que geram. A Meta aplica o rótulo “AI info” a anúncios criados ou muito editados com a sua IA generativa, e o coloca ao lado de “Patrocinado” quando aparece uma pessoa fotorrealista gerada. O TikTok informa que os vídeos do Symphony saem com rótulo de IA e marca d’água invisível. O Google aplica a marca d’água SynthID às imagens geradas ou editadas no Asset studio. Ou seja: em muitos casos, o aviso ao público já vem da plataforma, e a marca precisa saber disso antes de aprovar a peça.

Essa distinção é útil como régua interna: quanto mais a peça parece registro de algo real, mais o aviso importa. Um cenário estendido num filme de ficção raramente pede rótulo. Um depoimento com voz sintética de uma pessoa real sempre pede autorização, e quase sempre pede aviso.

Estudo não é compromisso

Uma parte da governança acontece antes de existir peça. Frames gerados para apresentar uma ideia viram, na cabeça de quem aprova, a imagem do filme. Se o estudo mostra um pôr do sol perfeito, alguém vai esperar esse pôr do sol na entrega. Por isso cada material de apresentação precisa dizer o que é intenção (luz, clima, enquadramento) e o que é compromisso (produto, elenco, locação). Uma linha no rodapé do storyboard evita uma rodada inteira de frustração na aprovação do corte.

O registro não precisa ser sofisticado

Uma planilha por projeto resolve: peça, etapa em que a IA entrou, ferramenta e versão, material de entrada, autorização correspondente e quem aprovou. O que importa é que ela seja preenchida durante a produção, e não reconstruída de memória quando alguém perguntar. Em operações com muitas peças por mês, esse registro vira parte do fechamento de cada entrega, junto com os arquivos finais.

Dublador com fones de ouvido grava diante de um microfone de estúdio numa cabine com espuma acústica.
Capítulo 06

O que a lei brasileira diz sobre IA generativa, imagem e voz?

Imagine um vizinho que quer usar a sua casa para filmar uma propaganda: entrar, filmar à vontade e publicar onde quiser, sem avisar, sem dizer por quanto tempo e sem pagar. Você deixaria? É claro que não. A mesma lógica já vale para imagem e voz no Brasil, com ou sem IA no meio.

O marco legal: PL 2.338/2023

A pergunta mais comum sobre regulação é “já é proibido?”. A resposta curta: a lei geral de IA ainda não existe no Brasil, mas isso não deixa ninguém livre. Direito de imagem, direito autoral, código do consumidor e autorregulamentação publicitária já valem para peças feitas com IA. O que está em discussão é um conjunto de regras mais específicas.

O projeto de lei 2.338/2023, apresentado no Senado por Rodrigo Pacheco, foi aprovado pelos senadores em dezembro de 2024 e enviado à Câmara em março de 2025. Lá, uma comissão especial foi criada para analisá-lo, com relatoria do deputado Aguinaldo Ribeiro, designado em maio de 2025. Na consulta que fizemos em 27 de setembro de 2026, a ficha de tramitação mostrava o projeto “aguardando parecer do relator na comissão especial”, com vários outros projetos de IA apensados ao longo de 2026, os mais recentes no início de setembro.

Réplica digital: rosto e voz

Na prática, isso quer dizer que não há data para a votação e que o texto final ainda pode mudar bastante. Qualquer guia que diga exatamente o que a lei brasileira de IA exige está se adiantando.

Enquanto o marco geral não anda, projetos mais específicos tratam do ponto que mais importa para o audiovisual: a réplica digital de uma pessoa.

Projetos sobre imagem, voz e réplica digital (situação consultada em set. 2026)
ProjetoO que propõeOnde está
PL 2.338/2023Marco legal da IA: regras gerais, riscos e responsabilidadesAprovado no Senado; aguardando parecer na comissão especial da Câmara
PL 1.460/2026Autorização prévia e expressa para réplicas, com finalidade, prazo e canais; consentimento revogável; proteção por 70 anos após a morteApresentado na Câmara em 2026; apensado ao PL 5.005/2025 em maio
PL 4.400/2024Réplicas em obras audiovisuais: autorização prévia e escrita, prazo e remuneração por novo uso, aviso ao públicoEm análise conclusiva em três comissões da Câmara
PL 4.025/2023Autorização prévia para uso de imagem e de obras protegidas por IA; licenças de voz e imagem de artistas limitadas a três anosAprovado na Comissão de Cultura em dez. 2025; segue para a CCJ
  1. Dez. 2024Senado aprova o PL 2.338/2023

    Texto segue para a Câmara em março de 2025.

  2. Maio 2025Relator designado

    Comissão especial da Câmara passa a analisar o projeto.

  3. Dez. 2025PL 4.025/2023 avança

    Comissão de Cultura aprova regras para uso de imagem e obras por IA.

  4. Mar.–mai. 2026PL 1.460/2026 é apresentado

    Proposta específica para réplicas digitais; em maio, é apensada ao PL 5.005/2025.

  5. Set. 2026Marco legal ainda sem parecer

    Novos projetos seguem sendo apensados ao PL 2.338/2023.

A regulação de IA no Brasil em cinco marcos. Nenhum desses projetos era lei na data deste guia.

Os projetos têm redações diferentes, mas convergem num ponto: consentimento prévio, por escrito, com uso descrito, prazo definido e remuneração por uso. Essa convergência é o melhor guia disponível para quem precisa contratar hoje.

O que já é exigível sem lei nova

Rosto e voz são atributos da personalidade, e usar a imagem de alguém para fins comerciais sem autorização já é problema no direito brasileiro vigente. O que muda com a IA é a facilidade de reproduzir essa imagem depois do set. Por isso o contrato de elenco, de locução e de influenciador precisa dizer, em linguagem clara, o que pode ser feito com aquele material: em quais mídias, por quanto tempo, e se inclui ou não criar uma réplica digital.

O mercado americano oferece uma referência de prática. Nos contratos de publicidade de 2025 do sindicato de atores SAG-AFTRA, criar ou usar a réplica digital de um ator exige consentimento com descrição razoavelmente específica do uso, formalizado em aditivo ou documento assinado, e o uso da réplica é pago como se o ator tivesse atuado. No Brasil, dubladores se uniram em 2024 na campanha Dublagem Viva para pedir regras sobre o uso de IA na dublagem, o que dá uma ideia de como a categoria recebe o tema.

Campanhas que circulam fora do Brasil

Para marcas com veiculação na Europa, o AI Act europeu passou a exigir, a partir de 2 de agosto de 2026, que quem usa IA para criar deepfakes (conteúdo de imagem, áudio ou vídeo que parece autêntico e se assemelha a pessoas, lugares ou eventos reais) informe o público de forma clara. Há um período de transição até dezembro de 2026 para a marcação técnica feita pelos fornecedores das ferramentas. Se a campanha é global, a regra europeia pode chegar antes da brasileira.

Integrante da equipe, editor com laptop e produtor com rádio conversam em volta de um monitor numa locação urbana.
Capítulo 07

Como muda o time de produção com a IA generativa?

Olhando três anos para trás, boa parte das ferramentas deste guia não existia. Seria pretensioso cravar como será o time daqui a três anos. Mas algumas mudanças já estão visíveis em qualquer equipe de produção, e ajudam a decidir o que aprender agora.

Cresce

Direção e curadoria (escolher entre muitas opções), revisão de continuidade e produto, gestão de direitos e registro.

Muda

Edição, motion e finalização incorporam geração, extensão e versões; pré-produção passa a entregar frames e animatics.

Continua

Direção de elenco, fotografia, som, set, produção executiva e a escuta do problema do cliente.

Três camadas do time: o que cresce, o que muda de forma e o que continua dependendo de gente.

Cresce o peso de quem decide

Quem já abriu uma pasta esperando três opções e encontrou trinta conhece o alívio que vira meia hora tentando escolher qual sobe. Quando gerar fica barato, decidir fica caro. A direção criativa passa a trabalhar com mais opções e precisa de mais critério para descartar. Aparece também um trabalho de curadoria que antes era diluído: olhar dezenas de resultados, comparar com o briefing e dizer qual fica, e por quê. Não é uma função nova no organograma; é uma habilidade que direção, edição e arte precisam exercitar.

A execução fica mais versátil

A mudança mais concreta é de perfil. Quem só edita, e só sabe editar, tem menos espaço num projeto que mistura filme, foto, versões e peças geradas. O editor ajuda na pré com frames de estudo; o fotógrafo precisa entender de vídeo; quem filma também faz still. As equipes que se adaptam melhor são as que conseguem se reorganizar para cada projeto, em vez de repetir a mesma divisão de tarefas.

Surgem tarefas de conferência e registro

Alguém precisa saber quais ferramentas foram usadas, com quais termos, e onde estão as autorizações. Em projetos pequenos, é a produção. Em operações contínuas, com dezenas de peças por mês, vira rotina com dono. É um trabalho pouco glamoroso, e é ele que permite que a marca publique sem medo.

O que não muda

Direção de ator, luz, som, set e a conversa com o cliente continuam no centro dos projetos que dependem de imagem real. Talvez o que mais pese seja a primeira reunião: entender qual problema a marca quer resolver antes de discutir ferramenta. Muitas vezes o pedido “um vídeo feito com IA” termina num projeto diferente, com IA em algumas etapas e pessoas em outras, porque o formato inicial não resolvia o problema.

Quando gerar fica barato, decidir fica caro.

Onde a IA entra no desenho da operação

Para a marca, a mudança também aparece no desenho do todo. Uma produção pontual resolve um momento. Um time interno preserva contexto. Freelancers somam especialidade. A IA acelera etapas. Nenhuma dessas forças sustenta sozinha um calendário de conteúdo; o trabalho é integrá-las num sistema contínuo, com organização e alguém respondendo de ponta a ponta. É o lugar que a Tangram ocupa: uma operação de conteúdo em que criação humana, IA e tecnologia trabalham juntas, com direção e governança. Com creators, a lógica é a mesma: a relação é da marca e da agência, e quando a agência nos convida, trabalhamos junto no set, na captação e na pós para que o conteúdo funcione dentro da campanha.

O que pedir de um parceiro de produção

Para quem contrata, a mudança no time do fornecedor aparece em perguntas simples. Quem, na equipe, decide o que fica entre os resultados gerados? Como vocês registram ferramentas e autorizações? O contrato de elenco prevê réplica digital, e em que termos? O que acontece com os arquivos se a ferramenta usada mudar de preço ou sair do ar? Um parceiro que responde isso com clareza está usando IA com método. Um que responde só com a lista de ferramentas ainda está na fase do encantamento.

A IA generativa não tirou da produção audiovisual a parte difícil. Ela tirou parte da parte repetitiva e trouxe perguntas novas sobre autoria, consentimento e confiança. No nosso dia a dia, ela já é ferramenta de trabalho — na pesquisa, na pré, na pós, nas versões — e justamente por isso tratamos essas perguntas como parte do método, e não como obstáculo. As marcas que vão tirar mais da IA são as que fazem o mesmo.

Perguntas frequentes

A IA generativa já substitui a produção de um filme publicitário?

Não nas peças que dependem de atuação, produto real e continuidade. Ela já substitui partes do processo, como frames de estudo, versões de formato, legendas e limpeza de pós, e pode resolver peças inteiras quando o estilo é claramente ilustrativo e o risco de marca é baixo.

Usar IA deixa um vídeo de marca mais barato?

Algumas etapas ficam mais rápidas, mas o dinheiro tende a mudar de lugar: sai de tarefas repetitivas e vai para direção, curadoria, revisão, ferramentas e jurídico. O ganho mais comum é mais exploração e mais versões pelo mesmo investimento.

Preciso de autorização para criar a voz ou o rosto de alguém com IA?

Sim. Usar imagem ou voz de pessoa identificável para fins comerciais sem autorização já é problema no direito vigente, e os projetos de lei em discussão convergem para consentimento prévio, escrito, com uso, prazo e remuneração definidos.

O marco legal da IA já está valendo no Brasil?

Não. O PL 2.338/2023 foi aprovado pelo Senado em dezembro de 2024 e, na consulta de setembro de 2026, aguardava parecer do relator na comissão especial da Câmara, sem data de votação.

Fontes

  1. IAB — 2025 Digital Video Ad Spend & Strategy Full Report (comunicado) · 15.07.2025
  2. IAB — The AI Ad Gap Widens · 15.01.2026
  3. NBC News — Coca-Cola causes controversy with AI-made ad · 18.11.2024
  4. The Coca-Cola Company — Givers of the Season, AI-powered storytelling in global holiday campaign · 03.11.2025
  5. YouTube Blog — Unlocking a global audience with auto dubbing · 04.02.2026
  6. YouTube Blog — How we're helping creators disclose altered or synthetic content · 18.03.2024
  7. The Decoder — OpenAI sets two-stage Sora shutdown · 28.03.2026
  8. Propmark — Conar atualiza guia de publicidade com influenciadores e inclui regras sobre IA · 13.05.2026
  9. Senado Federal — PL 2.338/2023 · 27.09.2026
  10. Câmara dos Deputados — ficha de tramitação do PL 2.338/2023 · 27.09.2026
  11. Congresso em Foco — Projeto cria regras para uso de imagem e voz em vídeos feitos por IA (PL 1.460/2026) · 05.04.2026
  12. Agência Câmara — Projeto define regras para réplicas de humanos geradas por IA em obras de audiovisual (PL 4.400/2024) · 04.04.2025
  13. Agência Câmara — Comissão aprova regras para uso de imagens e obras autorais por IA (PL 4.025/2023) · 19.12.2025
  14. Lei 9.610/1998 (Lei de Direitos Autorais), art. 11 · 19.02.1998
  15. Comissão Europeia — Quick facts: transparency rules for AI systems (AI Act, art. 50) · 27.09.2026
  16. DLA Piper — 2025 SAG-AFTRA Commercials Contracts MOAs transform in the digital age · 01.04.2025
  17. IAB — Business Outcomes Are Just the Beginning (2026 Digital Video Ad Spend & Strategy, parte 2) · 14.07.2026
  18. NBC News — McDonald’s pulls AI-generated Christmas ad after social media backlash · 11.12.2025
  19. NPR — An AI video ad is making a splash. Is it the future of advertising? (Kalshi) · 23.06.2025
  20. YouTube Blog — YouTube CEO Neal Mohan’s 2026 letter · 21.01.2026
  21. YouTube Blog — Made On YouTube 2026: all announcements · 23.09.2026
  22. Meta — Second Quarter 2026 Results Conference Call (transcrição) · 29.07.2026
  23. Meta — Expanding GenAI transparency for Meta’s ads products (atualizado em 1/6/2026) · 01.06.2026
  24. Google Ads Ajuda — About Asset studio (consultado em 27/09/2026) · 27.09.2026
  25. TikTok for Business — Transforming video creation with TikTok Symphony and Dreamina Seedance 2.5 · 03.08.2026
  26. Tela Viva — Dubladores brasileiros se unem em campanha por regulamentação da IA · 19.02.2024
Quem escreveRedação Tangram · Journal

Criação, produção e operação de conteúdo para marcas e agências: criação humana, IA e tecnologia no mesmo sistema. São Paulo e Rio Grande do Sul.

Tem um projeto na mesa?

Da primeira ideia
ao último corte.

Vamos conversar